Ser Surfista, reflexões de um não-surfista

Colunista de O Globo, Arnaldo Bloch presta uma bela homenagem à comunidade dos homens que desafiam as ondas.

por Alceu Toledo Junior, 25/07/2017
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"Que vida levam essas pessoas que escolhem andar sobre as águas do mar como jesuses sem filiação divina!".

Realmente, quem pega onda sabe como ninguém qual é o prazer espiritual, físico e metafísico de deslizar sobre o oceano. Porém, poucos que não pegam onda são capazes de descrever ou de imaginar o que é surfar de verdade.

Estamos falando de Arnaldo Bloch, jornalista de O Globo, autor de um primoroso texto sobre o surf, publicado na semana passada com o título "Ser Surfista", em que ele aborda um "sonho reprimido".

"Um primo mais velho surfava e tocava Minimoog. Estávamos na metade dos anos 1970. Na Região dos Lagos de então, numa Cabo Frio semideserta entrecortada por lagoas e manguezais, cheguei a subir numa prancha e desci uma pequena onda. Não levava jeito, ou não tive jogo de cintura para prosseguir. Mas peguei muito jacaré e vi as ondas de Maçambaba sentado em dunas amarradas por vegetação árida. Assisti a “Endless summer”, com aquelas ondas eternas, a imagem de um surfista que atravessa metade da faixa litorânea na ponta de vagas suaves e estéticas. Que vida levam essas pessoas que escolhem andar sobre as águas como jesuses sem filiação divina!", descreve Bloch.

Desmitificador, destrói o estereótipo do surfista burro e ignorante: "Ouvia muita gente dizer que surfistas não falam mais que dez palavras. Com o tempo, vi que essa noção preconceituosa escondia algo profundo: falar para quê? O que valem as palavras quando se passa o dia num diálogo com a água, o sal, o vento, o Sol, em manobras sempre inéditas, transitando por tubos móveis, transpondo esculturas mutantes cor de esmeralda, paredes diáfanas, colossos de espuma com arco-íris, e passando noites ao luar, ouvindo música, namorando, dormindo ao relento ou em choupanas primitivas?".

Segundo ele, o surfista é um sábio, que além de interpretar a natureza, interage física e mentalmente com ela: "O mais culto, letrado, dos seres, se conseguisse prosperar nessas condições de integração com a natureza em meio a uma civilização caótica em permanente conflito, abriria mão do peso impositivo palavras, o fascismo da língua de que fala Barthes, em prol de uma comunicação muito mais abrangente dos sentidos e do intelecto com aquilo que o verbo nunca será capaz de expressar."

Essas capacidades tornam os surfistas especiais, seres míticos e superiores diante do cidadão comum: "Essas reflexões juvenis me têm voltado frequentemente à cabeça e me levam a arriscar: o surfista é o ser mais inteligente na corrente civilizacional. Está na crista da evolução humana. Claro, o surfe mudou, se profissionalizou, exige investimento para os que se engajam numa perspectiva contemporânea, atrelada à carreira, incluindo patrocínios, planejamento para competições e viagens. É quase impossível sair explorando ilhas a esmo e viver de migalhas, como no tempo da contracultura. Mas a essência permanece: é romântica. Está na busca sã de fugir ao hábito, que robotiza o cidadão nas entranhas da cidade."

Para finalizar, Bloch divaga nos variados estados mentais que o surfista encara em sua dialética diária nas ondas: "Diferentemente de outros esportes radicais, nos quais o risco e a adrenalina parecem ser o objetivo único, chapado, o surfe continua mais interessado na criação, no fluir, na autonomia do corpo e da mente, sendo o risco, embora presente, secundário. Na química do surfe, a adrenalina enamora-se da dopamina, da serotonina e da oxitocina, na busca de um estado mais de elevação do que de queda. E, quando vem a queda, é levantar, sacudir a espuma e dar a volta por cima da arrebentação para a próxima jornada."

Clique aqui para ler a crônica Ser Surfista na íntegra.

 

Sobre o Arnaldo Bloch Ele nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 20 de abril de 1965. É jornalista e escritor. Estudou Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj/RJ). É sobrinho-neto do publisher Adolpho Bloch (1908–1995).

Desde pequeno frequentava redações e chegou a ilustrar a capa da revista Manchete (RJ), completamente nu, quando tinha apenas um ano de idade. O império de comunicação da família Bloch o influenciou na escolha pela carreira de jornalista. Foi repórter e redator na revista Manchete (RJ), de 1987 a 1993. Paralelamente, foi editor da revista Sétimo Céu, entre 1990 e 1991, além de correspondente e representante da Bloch Editores em Paris (França), entre 1991 e 1993.

Em 1993 passou a integrar a equipe do jornal O Globo (RJ), onde desempenhou diversas funções: editor do caderno Boa Chance, de 1993 a 1995; chefe de redação da sucursal de São Paulo entre 1996 e 1998; editor executivo de Cultura e do Segundo Caderno, e repórter especial de 2000 a 2001. Passou a manter um concorrido blog no site da Infoglobo, de 2006 a 2015, além de escrever crônicas e reportagens e editar a seção Logo/A da página Móvel de O Globo.

Já atuava no grupo quando lançou o primeiro livro, Amanhã a Loucura (Nova Fronteira, 1998). Vieram, em seguida: Talk-Show (Companhia das Letras, 2000), Fernando Sabino (Coleção Perfil/Relume Dumará, 2000), Os Irmãos Karamabloch: Ascensão e queda de um império familiar (Companhia das Letras, 2008)* e O Ciclista da Madrugada e Outras Crônicas (Record, 2009). Participou da coletânea 13 Maneiras de Amar: 13 histórias de amor (Nova Alexandria, 2001), com o conto Lição de química, e escreveu um conto para a obra Geração 90: Os transgressores (Boitempo, 2003), organizada por Nelson de Oliveira.

Foi finalista, com Sebastião Salgado, do Prêmio Esso de Jornalismo 2014, na categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental, sobre uma festa fúnebre dos Ianomâmis, realizada na fronteira entre Roraima e Amazonas, publicada em O Globo. A matéria conquistou o Prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) 2014, na categoria Fotografia.

Deixou o jornal em janeiro de 2017, quando a Infoglobo unificou as redações de O Globo e de Extra, provocando a demissão de dezenas de profissionais. Apesar de perder o vínculo, continua a manter uma coluna na publicação aos sábados.

Gosta muito de música. Toca sax e, quando jovem, montou uma banda de rock chamada O Nome do Grupo, que teve o humorista Bussunda como um dos integrantes.

Fonte Portal dos Jornalistas

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