O anjo da Guarda

Fotógrafo William Zimmermann presta homenagem ao amigo e irmão Ricardo dos Santos, um verdadeiro surfista de alma.

por William Zimmermann, 15/02/2017
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Conheci o Ricardinho há uns 15 anos na Guarda do Embaú, por um amigo em comum e desde então nos tornamos amigos muito próximos. Na época, ele tinha uns 10 anos e já arrebentava nas ondas da Guarda e nas competições amadoras.

O maior rival na época era o Alejo Muniz.

Passávamos o dia na casa dele, surfando e assistindo filmes de surf. E o que ele mais gostava era Fanning The Fire. Na época, ele era patrocinado pela marca de pranchas Skull e roupas da Stanley. O tempo passou e aquele moleque virou um cara de muita personalidade, sempre correndo atrás e alcançando os objetivos, era um cara muito determinado.

Devido aos bons resultados nas competições e ao título de campeão catarinense, ele logo conseguiu novos patrocínios, como a Mormaii, que o levou para o Hawaii pela primeira vez. Também foi para Asu, Indonésia, onde surfou ondas pesadas com apenas 15 anos, mostrando muita atitude apesar da pouca idade, impressionou.

Lembro que ele queria ir ao Hawaii uma vez mais e não tinha dinheiro. Mesmo assimm, dizia que iria. Uma semana depois, apareceu um cara pra alugar um quarto na pousada da avó dele, na Guarda. Esse cara ficou amigo do Ricardo e acabou pagando a viagem dele ao Hawaii.

"Não te disse, cara que eu eu ia", ria.

Esse era o Ricardo, muito determinado, um cara de família e dos amigos. Sempre que estava na Guarda chamava os melhores amigos pra ficar com ele, pra surfar, tomar café, fazer qualquer coisa, mas tinha que ser com os amigos. Não importava as voltas ao mundo que ele deu, a melhor parte era chegar em casa e chamar a galera próxima pra fazer algo, um churrasco, uma tainha...

Com a ajuda do seu técnico na época, Otoney Xavier, ele conseguiu patrocínio da gigante do mercado, Billabong, Von Zipper, Kustom e Nixon. Em 2007, no Chile,  ainda garoto, ganhou o Billabong Pro Jr em Pichilemu com um surf bonito nas perfeitas ondas de Punta Rocas.

Fizemos algumas viagens juntos pra Patagonia, Argentina e Uruguai e sonhávamos juntar os melhores amigos em um barco nas ilhas Mentawai.

Moramos juntos um tempo na Barra da Lagoa, em Floripa, para que ele pudesse ficar mais perto do centro de treinamento do seu patrocinador, a Mormaii.

Muito talentoso, era um cara que amava a Guarda e tentava cuidar dela ao máximo.

Como amigo, agradeço muito as portas abertas por ele. Sempre me dava conselhos e eu tentava ajudar no que fosse preciso. Algumas vezes, ligava às 4 da manhã para dizer que não conseguia dormir devido ao fuso horário e queria ficar conversando, hehehehe.

Ele tinha muitos amigos, mas havia um grupo mais seleto que ele chamava de time: eu, Bruno Zanin, Fabrício de Souza, Jean Coelho, Kadinho, Andrey, Ari e o seu técnico Leandro Dora.

No Tahiti, conquistou duas vezes o título do Von Zipper Trials e conseguiu a vaga para o evento principal, quando derrotou nomes de peso como Taj Burrow e Kelly Slater e só parou numa bateria incrivel com Mick Fanning.

Naquela altura, o mundo do surfe já sabia do potencial daquele atleta da Guarda do Embaú, que se tornava um gigante quando as ondas ficavam grandes e tubulares. Com performances incríveis no México, Tahiti e Pipeline,  em 2013 ele conseguiu um feito inédito para o Brasil, ganhando o prêmio do Wave Of The Winter no Hawaii.

Ainda em 2013 fomos para a Patagônia atrás de novas ondas e novas aventuras. Ficamos acampados e dividindo a mesma barraca por 13 dias na espera das ondas no meio do nada.

As ondas não apareceram, mas as histórias foram muitas e ele foi apelidado de senhor do fogo, porque sempre acordava primeiro e ia pegar lenha para esquentar a sopa. Ficava contando as histórias das viagens que tinha feito, os lugares e eu, imaginando como era. Tomando café na cidade de Ushuaia... ninguém amava mais um café preto sem açúcar do que ele.

O legado é muito claro. Afinal, não importa se você mora num vilarejo de pescadores com 2 mil habitantes ou numa metrópole com 1 milhão de pessoas. Se você tem seus objetivos, corra atrás e não desista, tenha foco e insista que uma hora será recompensado. Ele é exemplo para a nova geração de surfistas da Guarda, que sonha em um dia ser um surfista profissional de destaque mundial.

Ele provou que isso é posssivel, mesmo vindo de um lugar pequeno e sem campeonatos de surf e sem visibilidade. Ele tinha muito orgulho de ser da Guarda do Embaú e deixava isso claro, sempre pedindo que respeitassem e cuidassem da Guarda. Ele já havia pedido, em uma entrevista, que a Guarda tivesse mais segurança para que as famílias que ali vivem e frequentam pudessem viver o lugar por completo.

Ele era uma pessoa que ajudava muito aos amigos e até mesmo pessoas que ele nem conhecia, simplesmente pelo fato de ajudar sem pedir nada em troca.

Viveu intensamente cada momento, deu várias voltas ao mundo. Mas, chegar em casa e chamar os amigos pra tomar um café ou fazer um churrasco, era a maior alegria dele. Ter os amigos de verdade por perto fazia muito bem pra ele, sempre tinha novidades pra contar das viagens e da vida de surfista profissional. Isso que eles nos deixa como lição: aproveitar cada momento junto aos amigos, além de ajudar a quem puder, sem esperar nada em troca.

Dois anos se passaram desde a ida do nosso anjo ao céu. Graças a Deus temos os amigos deixados aqui na terra que nos ajudam a superar a falta que ele faz.

É inevitavel que quando os amigos se encontram muitas histórias vividas junto a ele vem à tona.

Sua namorada, Karoline Esser, o amigo do peito Fabrício de Souza; minha namorada, Débora Cristina, e eu tivemos alguns encontros e aproveitamos pra relembrar alguns destes momentos.

Um deles, que marcou bastante, foi o último reveillon de 2015, que noite memorável.

Acho que a última vez que tive a chance de celebrar a chegada do ano novo com ele foi há uns 10 anos, pois ele sempre estava no Havaii nessa época.

Nos reunimos às 11 da noite, na beira do Rio da Madre, e entramos no Birutas Bar, de nosso amigo Hélio.

Lá estavam mais alguns amigos da Guarda e a vibe era a melhor possível, todos muitos felizes  por compartilhar aquele momento com o Ricardinho, o cara realmente fazia diferença.

Ainda lá, me apresentou a uns amigos novos, que se torrnaram meus amigos também. À meia noite estouramos nossas champagnes, ou Cidras, não lembro, para brindar a vida e a nossa amizade.

Ele queria todos os amigos ali naquele momento, mas nem todos puderam ir.

Mas, de qualquer forma o Ricardo estava feliz, muito feliz por estar no seu santuário, em casa com os amigos, vendo sua casa ficanr pronta. Enfim, o clima era de celebração. O amigo Junior Maciel e a esposa dele fizeram parte da noite também, além de seu primo e por que não ídolo, Vinicius Pereira, fez parte desse momento, bem como seu irmão João Antonio.

Todos queriam a atenção dele. "E aí, como foi o Hawaii? E a lesão? Fica até quando? Vai pra onde?"... Essas coisas...

Lá pela 1 da manhã, fomos para o Tucas Bar, ao lado de onde estávamos, onde o amigo e DJ Pietro iria animar a galera, com vários amigos curtindo a vida, que noite memorável, provavelmente o melhor reveillòn da vida.

Que vibe foi aquela, cerveja gelada, boa música, namorada e amigos.

Quando reparei, ele já estava em cima do palco, junto com o DJ, sua namorada e outros amigos, todos dançando muito.

Foi nosso último reveillòn juntos, e que ficará para sempre em nossas memórias. Esta é apenas uma de tantas histórias.

Descanse em paz, amigo e irmão Ricardo dos Santos.


 

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