Scander explica polêmica

Roberto Pierantoni entrevista vice-presidente da Confederação Brasileira de Skate, legítima representante da modalidade no país.

por Roberto Pierantoni, 15/03/2017
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Se tem um cara que respira, sente e vive skate, esse cara é Ed Scander, hoje com 49 anos de idade e mais de três décadas dedicadas ao universo do carrinho.

Fundador e atualmente vice-presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), ele faz parte do grupo que está à frente do processo de legitimar a entidade como a representante do esporte nos Jogos Olímpicos do Japão, em 2020, e do movimento “#somostodosCBSK”, realizado por atletas e entusiastas em apoio à entidade nas Olimpíadas.

Ed Scander (Edson Henrique Scander) falou com o site InnerSport e nesta entrevista aborda outras ações da CBSk em prol do esporte e dos atletas como atendimento médico gratuito e, de alta qualidade para os associados e a intermediação da entidade junto às autoridades e ao poder público, bem como conta um pouco de sua história como dirigente e como skatista amador, que acumula vitórias importantes em competições destinados aos experientes nas modalidades street, mini-ramp, banks e bowl.

Como anda este dilema para saber qual entidade será responsável pelo skate nacional nos Jogos Olímpicos de 2020?
Ainda não há novidades. A CBSk (Confederação Brasileira de Skate) aguarda a International Skateboarding Federation (ISF) comunicar como foi a reunião com o Comitê Olímpico Internacional (COI) e com a Federacion Internacional de Roller Sports (FIRS) para tratar não só do problema no Brasil, como de diversos países, já que é algo mundial.

A CBSk se considera a legítima representante dos skatistas para as Olimpíadas? Por quê?
A CBSk não se considera. A entidade é a legítima representante do skate, porque não tem como separar as situações do dia a dia do processo olímpico! A CBSk foi fundada e é formada por centenas de skatistas que sabem como funciona nossa comunidade: cena e mercado. No dia 6 de março, ela completa 18 anos de serviços prestados ao desenvolvimento do skate brasileiro e, graças a CBSk, temos colhidos excelentes resultados em competições internacionais nos últimos tempos.

Como a CBSK vê a posição da federação de esportes de rodinha em querer ser a organizadora do skate brasileiro nos Jogos?
Com todo respeito à entidade e seus dirigentes, ela não tem experiência nenhuma para tentar organizar um esporte com a grandeza e particularidades do skate. Somente skatistas conseguem lidar com skatistas. Senão, é se meter em problemas!

A CBSK vê oportunismo por parte desta entidade?
Não, são apenas pessoas apaixonadas por seu esporte. Contudo ela poderia trabalhar mais para os nossos irmãos patinadores de street e de downhill, maioria dos praticantes da modalidade que tal confederação representa, que estão carentes há décadas, tendo que os próprios patinadores organizarem seus campeonatos e batalhar por benefícios. Como a comunidade de skate pode ter confiança nela se não atende dignamente nem todos seus atuais praticantes?

Você poderia dar um panorama de como é e está este processo de “briga” com esta entidade?
Não há briga nenhuma com alguma entidade e muito menos com os patinadores, pelos quais temos grande respeito e admiração por batalhar por melhorias de sua paixão, como nós skatistas.

Fale do movimento “#somostodosCBSK”? Acredita em resultado positivo para a entidade?
A campanha #somostodosCBSk está sendo fantástica porque, além de ter unido centenas de milhares de skatistas em todo Brasil, demonstrou para a sociedade, imprensa e poder público a legitimidade da CBSk. Acredito que nenhuma confederação nacional tenha a aceitação que a CBSk tem em sua comunidade. Não é fácil para alguma confederação receber apoio de todos os principais ídolos do esporte! Uma campanha que tem apoio do Bob Burnquist, Sandro Dias, Sérgio Yuppie, Douglas Dalua, Letícia Bufoni, Sandro Testinha, Carlos Paixão, Rodil Ferrugem, Pedro Barros, Rony Gomes, Rodrigo Maizena, Edgard Vovô, Felipe Foguinho, Kelvin Hoefler, Murilo Peres, Pâmela Rosa, Mateus Palitinho, entre centenas de outros, já demonstra ter sucesso. Quando esta campanha repercute internacionalmente, dando esperanças para skatistas de outros países com o mesmo problema, e chegando até o COI, então teve resultado super positivo!

Recentemente, vocês divulgaram que a Internacional Skateboarding Federation (ISF) fez um comunicado em sua página oficial demonstrando apoio à CBSK. Vocês acreditam que irá mesmo sensibilizar o Comitê Olímpico do Brasil (COB)?
A campanha #somostodosCBSk é um trabalho de formiguinha e, cada vez que algum skatista assina o abaixo-assinado, o COB recebe uma mensagem eletrônica. Cada vez que um skatista de renome faz um depoimento de apoio a CBSk na TV, com certeza, o COB fica sabendo. A ISF, ao publicar um comunicado de apoio à CBSk, o COB fica sabendo. Então, todas as ações da campanha já fizeram o COB olhar com mais atenção para a CBSk, tanto que publicamente já manifestou não ter tomado uma decisão final sobre o caso.

Explique como será as competições do skate nas Olimpíadas? Quais modalidades? Quantos representantes por País? De que forma se dará a escolha dos atletas? Masculino e Feminino?
A Tokio Skateboarding Comission, liderada pela ISF e com participação da FIRS, decidiu que serão park e street, tanto masculino quanto feminino em cada modalidade, com 20 vagas para cada. Em 2019, a ISF organizará um Circuito Mundial das quatro modalidades/categorias nos moldes do Street League Skateboarding e do Vans Park Series, em que os três brasileiros melhores colocados em cada modalidade/categoria se classificarão para as Olimpíadas. O mesmo acontecerá para os norte-americanos. As demais vagas serão definidas por continentes.

Além da luta da CBSK pelos Jogos, qual é, de modo geral, a atuação da entidade do skate? Em quais quesitos a CBSK colabora para a evolução do skate brasileiro?
A CBSk não está simplesmente lutando para participar das Olimpíadas. A causa é muito maior do que esta! A campanha “#somostodosCBSk” ocorre pois, se a CBSk não for filiada ao COB e não participar do processo olímpico, ela, suas federações e associações filiadas perderão a representatividade perante ao poder público e não terá direito em representar os skatistas na defesa de seus direitos civis e esportivos. A CBSk tem como missão desenvolver e difundir o skate nacional.

Para tanto, mantém atendimento aos skatistas, imprensa, poder público e empresários diariamente ao esclarecer dúvidas e orientando. Também mantém comunicação com federações, associações e promotores de eventos para estabelecer uma política de atuação, como formar calendários de todas as modalidades e categorias.

Estabelece reuniões com skatistas profissionais para criação de regulamentos e suas atualizações em todos os anos. Conversa com o poder público para resolver questões de interesse da comunidade do skate brasileiro e presta consultoria nos principais eventos internacionais realizados no Brasil, intermediando a criação de regulamento, convidando os skatistas e, depois, organizando suas competições. Também produz campeonatos de modalidades e categorias que nenhum promotor quer organizar por falta de participantes. Porém, é muito importante para o desenvolvimento do skate no Brasil.

Qual o maior feito da CBSK até hoje?
Apesar da realização de todas edições da Mega Rampa, de dezenas etapas do Circuito Mundial no Brasil ou dos circuitos brasileiros profissionais, o maior feito da CBSk foi ter conseguido, há cinco anos, atendimento médico gratuito e de alta qualidade para os skatistas através do Grupo de Trauma Esportivo da Santa Casa ou do Instituto de Ortopedia e Traumatologia dos Hospital das Clínicas.

Graças a estas duas parcerias, centenas de skatistas foram atendidos e até operados gratuitamente com os melhores médicos esportivos do Brasil. Antes disso, se algum skatista tivesse uma lesão séria, ficava meses sem andar e perdiam seus patrocínios, porque até hoje a esmagadora maioria dos skatistas, mesmo os profissionais, não tem plano médico e seus patrocinadores não pagam para não criar vínculo empregatício. Infelizmente!

Hoje em dia, você acredita que o skatista ainda é discriminado ou marginalizado?
Sim! Ainda é. Mesmo com todo apelo com a cobertura na televisão, principalmente dos grandes campeonatos internacionais. Contudo, cada dia fica restrito às pequenas cidades do interior, sendo assimilado cada vez mais nas grandes metrópoles. Contudo, mesmo nas grandes cidades, ainda há este estigma e casos de violência contra skatistas continuam acontecendo, seja cometidos por guardas civis metropolitanos, seguranças de Metrô ou mesmo por cidadãos comuns.

Imagens com as cenas brutais que viralizou na internet e foi parar até nos telejornais em que seguranças do Metrô de São Paulo agridem um skatista acabaram gerando polêmica de comportamento de ambas as partes. Até que ponto a CBSK pode interferir ou participar de situações como esta?
São fatos extremamente lamentáveis, de violência desproporcional, infelizmente! Sabemos que o rapaz estava errado por ter andado de skate nas dependências e que, mesmo advertido pelos seguranças do Metrô, demonstrou desrespeito e provocou. Porém, guardas preparados e bem treinados teriam postura diferenciada. Errou o rapaz, mas também erraram os seguranças e a administração do Metrô, por não ter treinado adequadamente seu quadro de funcionários.

Quanto à CBSk, por ela ser uma entidade regulamentadora esportiva, não pode fazer muito a respeito de casos como estes. Somente repudiar, porque não aconteceu em um campeonato de skate, envolvendo seus participantes. Seria o mesmo que a Confederação Brasileira de Futebol ter que intervir em briga de bar por causa de discussão de futebol ou porque a bola quebrou a janela do vizinho.

O que te levou à CBSK? Fale de sua participação atual e de seu histórico na entidade?
Sou fundador da CBSk por ter sido presidente da ASKL em 1999. Em 2003, fui convidado por Alexandre Viana para compor uma chapa como vice-presidente, que saiu vitoriosa. Quando terminou o mandato, não queria mais continuar. Porém, a nova presidência – formada pelo Marcelo Santos e Lauro Netto – pediu para eu ficar mais um ano como diretor esportivo, o que acabei aceitando e ficando até o final do mandato deles. Em 2011, o Marcelo Santos me convidou para montar uma chapa como seu vice-presidente que, mais uma vez, foi eleita. E em 2015, fomos reeleitos para mais uma gestão. Também fui fundador e presidente da Federação Pernambucana de Skate (FPS).

Quanto tempo pratica skate, chegou a se profissionalizar? Conquistou títulos?
Tenho31 anos e meio de prática, mas nunca me profissionalizei. Fui campeão em nove campeonatos nas categorias Master, Grand Master ou Legend, nas modalidades street, mini-ramp, banks e bowl. A última vez foi em Belo Horizonte, em 2012, numa etapa do Circuito Brasileiro de Bowl Legend. Na última temporada que competi, 2015, fiquei em quinto lugar no ranking brasileiro de Banks Legend e fui terceiro colocado no Brasileiro Universitário Amador.

Fonte InnerSport

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